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Alimento para Alma


Galerias são opção interessante para passeio cultural em Uberlândia


GUSTAVO MOREIRA - Repórter - ( mailto:redacao@correiodeuberlandia.com.br )


Um caldeirão cultural com diversas influências e manifestações. Assim pode ser definido o acervo disponível à visitação do público (gratuitamente) nas principais galerias de Uberlândia. O interessado pode se deliciar com a contemplação de temas assinados por artistas locais como Alexandre França, Aninha Duarte, Vânia Vilela, Leonardo Finotti (entre outros) e obras clássicas brasileiras como as do pintor modernista Cândido Portinari.
Difícil passar pela rua Vigário Dantas, no bairro Fundinho, e não perceber as obras assinadas pela artista plástica Vânia Vilela. Os 25 anos de carreira da profissional estão relatados nas produções de diferentes fases como da coleção "Bichos Híbridos" (em telas e esculturas) e as obras atuais, influenciadas pela busca da interioridade humana. Pela vitrine da galeria é possível visualizar as mensagens de paz, amor e a busca da interioridade feitas com sucata em grandes letras de forma.

A preocupação com a preservação dos recursos naturais é o ponto mais marcante em "Bichos Híbridos", que mostram animais do cerrado, misturados com outros bichos de todo o mundo. "Neste trabalho eu faço a fusão de vários animais que se transformam em seres biomáticos", define. Nas viagens à Índia, a artista encontrou respostas aos diversos questionamentos sobre a busca de harmonia, paz e o desenvolvimento energético. Alguns dos resultados destas inquietações são trabalhos feitos em forma de perfurações em tecidos, que formam desenhos de mandalas, rosas e estrelas.

Casa de Idéias
A vivacidade e o alto astral são o ponto forte da arte de Alexandre França. As produções do artista estão disponíveis à visitação em galeria própria (veja quadro). Logo no saguão de entrada, duas peças chamam o visitante à indagação sobre o cotidiano. Com os títulos "Hoje" e "Yesterday" (ontem), os quadros ressaltam as expectativas humanas sobre o presente e as reflexões sobre o passado.
A galeria de França – chamada de Casa das Idéias – faz jus ao nome. O espaço possui inúmeros itens, assinados por vários artistas, que vão prender a atenção dos visitantes. As obras de Aninha Duarte chamam para a religiosidade do povo brasileiro, principalmente, com oratórios, comuns no universo interiorano. As fotos de Finotti impressionam pelos detalhes das imagens que capturaram vários pingos de leite. O resultado são fotos exóticas impressas em preto e branco.
Elizabeth Nasser guarda tesouros de Portinari no Fundinho

O acervo da marchand Elizabeth Nasser é de fazer inveja a qualquer colecionador. Na galeria particular (entrada franca), a profissional guarda 18 exemplares do pintor modernista Cândido Portinari, um dos mais reconhecidos no Brasil, além de ter recebido vários prêmios internacionais como a segunda menção honrosa na exposição do Carnegie Institute de Pittsburgh, nos Estados Unidos, em 1935. Cada figura do artista são avaliados em, no mínimo, U$$ 80 mil.

A artista Vânia Vilela tem sua obras exposta em Galeria
na Rua Vigário Dantas, Uberlândia.
O pintor, natural do município de Brodoswki no interior de São Paulo, é considerado um clássico do modernismo (entre outros motivos) pela retratação do Brasil e das desigualdades sociais. De origem pobre, Portinari nasceu numa fazenda de café. A influência foi levada para as artes, posteriormente, na tela intitulada "Café", que recebeu prêmios nos Estados Unidos em 1935. "O diferencial de Cândido Portinari é o fato de ele ter sido um artista pintor. Me sinto um pouco realizada de tê-lo em minha coleção, pois gostaria de ter todos os modernistas", diz.

Elizabeth Nasser tem outras obras de importantes como os paulistas Antônio Carelli, Antônio Cabral e José Carlos Porangaba Martins (conhecido como Martins Porangaba). Todo o acervo está disponível à visitação do público e a pesquisadores.

SERVIÇO
Galerias (local e horários de visitação)
Galeria Vânia Vilela
Rua Vigário Dantas, 236
Fundinho
Horário de funcionamento: das 8 às 12h // das 13 às 18h
ENTRADA FRANCA

Casa das Idéias
Rua Javari, 32
Lídice // 3219-3662
Horário de funcionamento: das 9 às 11h30 // das 14 às 17h30
ENTRADA FRANCA

Galeria Elizabeth Nasser
Rua José Aiube, 360
Fundinho
Horário de funcionamento: das 14 às 18h
ENTRADA FRANCA

Conjunto Cultural da Caixa - SP

Por entre bancários, automóveis, ruas, a avenida e a Praça.
E quando milhões de buzinas silenciam, ainda que disparem, no momento exato em que as retinas se desviam da luz ofuscantes dos para-brisas, estão elas, as esculturas retorcidas e inexatas, agudas e solenes, desafiando sensibilidade de cidade, mar e ilhas com seus riscos.

Não é esse o papel do artista?
Correr riscos não é do artista o ofício?
Ser artista não é ser solidário e teimosamente solidário?
Não é acreditar que o mundo pode ser transformado a pau e pedra, só que com verniz, sutileza, suavidade,lixa e cinzel?

Ser artista não é ser herdeiro das fagulhas de Prometreu, aquele louco Deus grego que inventou os homens e lhes deu o fogo e lhes mostrou o ferro adormecido debaixo da terra?

Alguns homens, os mais covardes, fizeram armas, outros, fizeram arte, assim desafiaram outros deuses numa sucessão interminável.

O papel da arte é o desafio?
Só que um desafio da nossa capacidade de amar. O desafio do tempo, do espaço da percepção. Não é submeter-se ao misto de amor e ódio amoroso?

Não é reconstruir e reinventar as coisas, o mundo e o homem?

Para isso é que a arte se expõe na Avenida e na Praça. Se submete ao jugo do sensibilidade, ainda que represente um anjo ou um papel retorcido abandonado na calçada. Não é o papel atirado que importa, dói o abandono, a solidão das grandes capitais que nos isola, nos amedronta, nos converte em adversários neste “Vale de Lágrimas”, que nos faz cegos de tanto ver, e que, de repente, ao nos defrontarmos assim com a arte, com a sutileza das curvas, o tom, o silêncio barulhento da visão, quem saber, quem sabe uma réstia de amor se ilumine e esse amor nos faça ver aquilo que o artista nos pediu para ver, e aí, aí não seremos maios os mesmos, porque é impossível voltar atrás naquilo que a arte nos mostra.

Conjunto Cultural da Caixa - SP

Crítica de Paulo Klein, Exposição Sé-Paulista (SP)

Nosso mundo Sustentável

“Além de conviver com algumas dos piores solos do Brasil intertropical, a vegetação dos cerrados conseguiu a façanha ecológica de resistir às queimadas, renascendo das próprias cinzas, como uma espécie de fênix dos ecossistemas brasileiros. Não resistem, porém, aos violentos artifícios tecnológicos inventados pelos homens civilizados”.

Aziz Ab’Saber

Minas é mais que um Estado brasileiro. Minas é um estado de espírito. Nas ondulações de suas montanhas, nas ruínas escavadas rumo ao seio da terra, a vida tem outra cor, outros sabores, outros aromas.

Horizontes, Horizontes, Horizontes. Bem além dos roteiros, roteiros, roteiros, horizontes! Belos horizontes. Minas é como Paris, Texas, Roma. Não tem tradução, apesar da sempre citada tradição mineira.

Talvez a melhor tradução para Minas seja a sua Arte. Dos babados de Aleijadinho aos recordes secos de Amilcar de Castro; de Mestre Ataíde à Guignard, Marcos Benjamin e Paulo Laender.
Ficando no bom bocado. Nas Artes Visuais e Cênicas, assim como na Literatura e na Música há que se tirar o chapéu para Minas.

Afinal é de Minas que surgem – de tempos em tempos – surpresas agradáveis, ventos novos para a vida cultural e artística dos Brazis. Uma das mais recentes é esta arteira de Uberlândia, repleta de luz e arte, Vânia Vilela. Ela tem aparecido com freqüência na capital paulista nos últimos três ou quatros anos para trazer seu entusiasmo e uma arte muito mineira, tão mineira que vai ficando universal. Ela impressiona desde o início, com sua sábia simplicidade mineira, no trato e na arte. E, como mineira ela foi, muito mansamente, conquistando campos e espaços. Avenidas.

Ex-aluna da Faculdade de Belas Artes da Fundação Mineira de Arte, em Belo Horizonte, depois de estudar em Ohio, Estados Unidos, chamou-me logo a atenção a tranqüilidade com que ela mesclava suas atividades de designer e artista plástica. Competência e mãos à obra.
Para criar uma obra prima muita tinta e muita enzima.

Seus objetos (que hoje incluem peças de mobiliário que podem ser vistas na Internet) tinham uma impregnação, em parte lúdica, em parte mistérios. Em peças de uma poética rusticidade, que remetem aos mundos vividos de mentirinha pelo poeta Manoel de Barros, eu vi paredes azinhavradas pelo tempo, caminhos dde lesmas luminescentes, pedaços secos porém cheios de orgulho da atmosfera do cerrado mineiro.

Depois de experimentar as possibilidas escultórias em sua produção, Vânia Vilela prossegue refletindo aspectos de sua região, o cerrado brasileiro.

Com grande competência, técnica no domínio dos materiais, estética no âmbito da pesquisa conseqüente e na construção dos universos míticos ou imaginários, ela se equipara – sei que é ousadia dizer – à pertinente qualidade de Amilcar de Castro. Consigo pensar nos cortes e dobras, não as torções e tenções, de seus “quadrados sustenidos” e mesmo nos jogos de cores que os contrastes de materiais de ferro, aço e madeiras especiais promovem numa bela junção de intencionalidade e Poética. Presença em ambos os casos. No início deste processo Vânia desenvolveu um alfabeto estilizado dos aspectos biomáticos da região de Cerrados. Suas peças já interpretavam as texturas e cores deste mundo particular que atinge vários estados brasileiros.

Com as texturas e pigmentos dos avanços em seus exercícios que transmutaram em arte certos elementos e organismos naturais. Era um quase achado, não trem de Minas, mas chão de minas. Na evolução da obra, desde os primeiros passos, o que se observou foi uma atualidade e pertinente conjugação de materiais, sempre finalizados por equilibrada elegância, já presente. Geralmente no projeto desenhado, Paleta de cores especiais, paleta do Cerrado, tons terrosos, ferruginosos, ela não recria apenas ccercas e cercaras, como reinventa a flora e a fauna da região.
É o momento atual desta artista bastante especial que podemos apreciar e partilhar nesta mostra que começa em São Paulo para itinerar por várias cidades brasileiras.

Para enfrentar o desafio de ocupar, inicialmente a Praça da Sé e a Avenida Paulista, Vânia Vilela optou por saltar seus bichos na cidade grande. Ao ar livre, suas esculturas transformaram-se em presenças lúdicas, alegrias das crianças e dos adultos numa bem sucedida alcagem que faz lembrar Niki St. Phale, além de Amilcar de Castro. A partir de cortes secos de projetos desenhados com previsão de matérias a artista vai criando seu hestiário, mescla de Cecília Meireles e Guimarães Rosa, Murilo Rubião e Julio Cortazar, Wagner Tiso e Pato Fú. Mais orquestrações pós-coloniais. Com sua devoção afetiva, Vânia Vilela deglute as espécies todas, raras ou em extinção, ou ainda aquelas que tem garantindo a existência das demais. Para devolver-las recicladas, com alma pedindo para que fiquemos atentos tanto à arte quanto a natureza.

Jurássico em alguns casos, geômetras excêntricos, retas, curvas, longilíneas, conexos e isósceles. Ítalo Calvino adoraria dar nome a estes bichos!

Dessa maneira, com bigoma e martelo, serra e cinzel recria a fauna (quase) perdida do cerrado e de todos os contos da terra. Animais simpáticos, intrigantes, desafiadores do nosso senso, eles habitarão dois pólos, no caso da cidade de São Paulo e área de grande circulação de passantes, estarão os animais supostamente pré – históricos e na Avenida Paulista, recanto dos bichos mais divertidos, quase “performáticos”, como sugere a artista.

Numa proposta de interação com o público, ou propondo essa interação com sua arte, a artista criou os bichos sem nomes, para que os passantes criem e procriem. E nesse sentido os “bichos” de Vânia Vilela tem tudo a haver com “bichos” da Lígia Clark.

Cheguei até a exercitar alguns nomes para ele: Pixtrix, Ferrugíndio, Matodonde, Triplixdátiro e Leguminósio para os jurássicos. E, Silvestrino, Tartagora, Macraco, Sepote, Elefixo e Chipanzebra para os performáticos.

Não era bem isso mas ficou sendo, tudo por conta do jogo, do brinquedo, da farra do talento e bom gosto que a artista generosamente oferece. Faz-nos lembrar a máxima de Breton, que enfatizava o necessário em prioridade ao simplesmente belo. Sem utopias modernetes, Vânia Vilela – em sua aproximação com o homem da rua, que caminha pelas avenidas – pressupõe um mundo – mais que sustenido – sustentável, onde a própria intervenção de cada um possa melhorar as coisas e garantir uma vida melhor para todos.


Paulo Klein
Crítico de Arte
APCA/ABCA/AICA
 

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